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2026-08-08Tetsuo: The Iron Man · dir. Shinya Tsukamoto, 1989

A carne que sonhava com parafusos

Um salaryman atropela um fetichista e acorda com o metal brotando da pele. Em 67 minutos de 16 mm, Tsukamoto transforma culpa, desejo e sucata numa doença que a carne aprende a querer.

Tetsuo: The Iron Man (Shinya Tsukamoto, 1989)
Tetsuo: The Iron Man · Shinya Tsukamoto, 1989

Tetsuo: The Iron Man transforma metal em doença porque encontra na culpa e no desejo uma carne já pronta para recebê-lo. Em sessenta e sete minutos, Shinya Tsukamoto filma um fetichista que abre a própria coxa para inserir um cano de ferro, foge em pânico e é atingido pelo carro de um salaryman. Não há, porém, uma linha reta entre esse acidente e a mutação. A narrativa volta ao atropelamento em fragmentos: o casal esconde o homem ferido no mato e faz sexo nas proximidades do corpo. Quando o salaryman se barbeia e encontra um espinho — uma lasca de aço — saindo da bochecha, o filme devolve a cena primária como uma culpa que não ficou enterrada.

Essa cronologia quebrada impede uma explicação médica ou moral confortável. A transformação não é uma transmissão literal que o enredo diagnostica; pode ser lida como contágio, uma forma física assumida pelo toque, pelo abandono e pelo sexo. Tsukamoto interpreta o fetichista, Tomorowo Taguchi o salaryman e Kei Fujiwara a namorada: três corpos que a montagem aproxima até que a culpa pareça ter trocado de hospedeiro. O aço não corrige o homem comum por um pecado. Faz emergir algo que o filme imagina como já latente nele.

Olhe o quadro acima. É o rosto no limiar exato em que deixa de ser rosto. Os parafusos não pousam sobre a pele: parecem empurrados de dentro, espinhas de aço que a carne expulsa sem entender. O alto contraste do 16 mm preto e branco transforma cada saliência num corte de luz contra o breu, enquanto o grão grosso deixa a imagem quase tão corroída quanto o personagem. Os olhos ainda são humanos, ainda se assustam, presos numa face que começa a pertencer à máquina. O horror do still não está no adereço, mas nessa consciência sobrevivendo dentro da mutação, obrigada a assistir ao próprio corpo trocar de espécie.

O metal como doença venérea

Chamar o metal de doença venérea é uma leitura, não o diagnóstico secreto de Tetsuo. Ela ajuda a nomear a maneira como o filme junta erotismo, ferida e punição sem separá-los. Tsukamoto declarou a intenção erótica; o filme a torna agressiva. A broca que irrompe da virilha do salaryman não funciona como uma piada fálica isolada: converte a excitação numa máquina que pode perfurar quem está perto. A namorada participa da espiral, apunhala o salaryman no pescoço e, no confronto final, é mortalmente empalada pela broca. O filme não pede que se atribua a ela uma escolha que não confirma.

O metal não invade o homem de fora: ele já estava dentro, esperando, e a única coisa que faltava era a carne admitir que sempre quis ser parafusada.

Por isso a palavra “contágio” importa menos como explicação causal do que como experiência de proximidade. O desejo se torna uma força que atravessa a culpa do casal e embaralha quem agride, quem sofre e quem deseja. É um parentesco feroz com Possession: nos dois filmes, o amor não purifica o corpo, fabrica uma matéria que ninguém consegue dominar. Tsukamoto não oferece a estabilidade de uma alegoria fechada. Ele deixa que a imagem transforme sexo, nojo e medo num mesmo impulso, sem prometer que possamos sair dele limpos.

A máquina feita à mão

A violência formal nasce de uma produção pequena, independente e artesanal, construída por uma microequipe ao longo de cerca de dezoito meses e filmada em grande parte no apartamento de Fujiwara. Isso não reduz o filme a uma façanha solitária de Tsukamoto. A presença de Fujiwara, Taguchi, Chū Ishikawa e dos demais colaboradores está inscrita no objeto: efeitos manuais, stop-motion e montagem fazem a cidade parecer montada com o mesmo material que fere seus personagens. A limitação vira método. Não há distância entre a sucata filmada e a matéria com que o filme foi fabricado.

A trilha industrial de Ishikawa não acompanha docilmente as imagens; ela as comprime. Cada aceleração, cada corte e cada deslocamento em stop-motion dá ao salaryman a aparência de uma peça sendo forçada até caber. Quando ele e o fetichista enfim se fundem, a raiva muda de registro e se torna uma declaração de amor monstruosa: os dois partem para transformar o mundo em metal. O final não restaura ninguém. Encena núpcias entre inimigos, uma união que substitui o casal por uma máquina de dois corpos.

Por que abutrear isto

Vencedor de melhor filme no Fantafestival de Roma em 1989, Tetsuo foi fácil demais de estacionar sob a etiqueta “cult japonês”. A etiqueta preserva o prestígio e retira o risco: converte uma experiência tátil, barulhenta e sexualmente desconfortável em curiosidade de catálogo. A duração curta tampouco é um convite à leveza. É a forma exata de um ataque que sabe quando parar antes que o espectador transforme a agressão em hábito.

Abutrear Tetsuo é devolver peso a esse filme pequeno e ruidoso sem fingir que ele cabe numa chave única. O metal pode ser cidade, culpa, desejo ou simplesmente matéria em revolta; cada leitura fica mais fraca quando se apresenta como sentença. O que permanece é a imagem de uma carne que aprende a desejar o que a destrói — e a estranha ternura com que, no fim, duas criaturas decidem enferrujar o mundo juntas.

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