O divórcio como exorcismo
Żuławski filmou o fim do próprio casamento e, sem querer, fez o filme mais honesto já feito sobre o que acontece com o corpo quando o amor apodrece. Isabelle Adjani entrega uma cena de metrô que ninguém deveria conseguir atuar.

Há filmes sobre separação que choram. Possession convulsiona. Żuławski escreveu o roteiro durante o próprio divórcio, em Berlim, e o que está na tela não é uma representação da dor — é a dor mal contida dentro de um gênero que não a suporta. Comece pelo enredo e você se perde: um homem volta de uma viagem de trabalho, descobre que a mulher quer deixá-lo, há um amante, há outra coisa, há um monstro. Termine pelo corpo e você entende tudo.
O corpo é o assunto. Anna (Isabelle Adjani) e Mark (Sam Neill) não discutem como pessoas; eles se contorcem, se atiram contra paredes, gesticulam como se a linguagem tivesse falhado e só restasse a carne. Żuławski dirige atores como quem provoca uma crise. E então vem a cena do metrô — Adjani sozinha num corredor subterrâneo, perdendo o controle de cada músculo, rindo e chorando e abortando algo invisível no chão de azulejo. É um dos atos de atuação mais extremos já registrados. Ela ganhou Cannes. Disse depois que levou anos para se recuperar.
O monstro é literal porque a metáfora não bastava
A certa altura, Possession revela que Anna mantém uma criatura num apartamento vazio. Uma coisa viscosa, tentacular, projetada por Carlo Rambaldi no mesmo ano em que ele fazia o E.T. de Spielberg. A tentação é ler isso como símbolo — o novo amante, o desejo, a doença mental. Żuławski recusa a leitura limpa. A criatura é literal porque, para ele, o que acontece num divórcio também é literal: você gera algo monstruoso a partir da pessoa que amava, e copula com ele, e ele toma a forma daquilo que você queria que o outro fosse.
Não é um filme sobre um casamento que termina. É um filme sobre o que cresce no vazio que o casamento deixa.
Por que abutrear isto
A crítica de 1981 não soube o que fazer. Cortaram o filme, classificaram como video nasty no Reino Unido, arquivaram como horror histérico. Levou quatro décadas para que Possession fosse lido como o que é: um documento sobre o colapso afetivo filmado de dentro do colapso. A histeria que incomodou os críticos é o método. Żuławski não está exagerando a separação; está se recusando a domesticá-la para o seu conforto.
Abutrear Possession é resistir à vontade de explicá-lo. O filme não quer ser decodificado — quer ser sobrevivido. Assista uma vez e você vai querer racionalizar. Assista duas e vai perceber que Żuławski já tinha previsto a sua defesa, e a filmou como mais uma parede contra a qual um corpo se atira.