A última coisa que Pasolini quis que víssemos
Não é um filme sobre sadismo. É um filme sobre o que o poder faz quando descobre que pode tudo — e Pasolini foi assassinado antes da estreia, como se a obra exigisse o corpo do autor em pagamento.

Há uma mentira de conforto que se repete sobre Salò: a de que é um filme inassistível. É o contrário. É assistível demais. O que ele torna insuportável não é a imagem — é a clareza. Pasolini filma a degradação com a frieza de um tratado, em planos compostos como afrescos renascentistas, e o horror nasce exatamente daí: da elegância com que o poder cataloga as suas vítimas.
A operação é simples e por isso devastadora. Sade escreveu Os 120 dias de Sodoma como uma enciclopédia da transgressão, uma máquina de excesso sem fim. Pasolini pega esse texto e o ancora num lugar e numa data: Salò, 1944, os últimos meses do fascismo italiano. A pornografia abstrata de Sade vira história concreta. Quatro libertinos — um duque, um bispo, um magistrado, um presidente — sequestram dezoito jovens e os submetem a um regime metódico de humilhação. Não há prazer no que fazem. Há administração.
O corpo como mercadoria final
O que Salò entende, e quase nenhum filme sobre violência entende, é que a crueldade extrema não é caótica. É burocrática. Os carrascos têm regras, horários, um mestre de cerimônias que narra. A famosa cena das fezes não é sobre escatologia: é sobre a redução do humano a matéria consumível, sobre um poder que decide até o que entra no corpo do outro. Pasolini, marxista, está dizendo algo preciso sobre o capitalismo tardio — a anarquia do poder que tudo transforma em produto, inclusive a carne.
O poder verdadeiro não tortura por raiva. Tortura por tédio, e documenta tudo.
É aqui que o still acima trabalha contra você. Olhe o algoz, não a vítima. A compostura. O fascismo de Salò não tem o rosto deformado do monstro de cinema; tem o rosto entediado de quem assina papéis. Pasolini recusa o conforto de um vilão que possamos odiar de longe. Ele filma o mal como função, não como caráter.
Por que abutrear isto
A crítica polida arquivou Salò na gaveta do "extremo", da provocação, do escândalo — e ao fazê-lo, neutralizou-o. Chamar um filme de chocante é uma forma de não pensar nele. Mas Pasolini não queria chocar; queria que você entendesse uma coisa sobre a obediência, sobre como corpos jovens aprendem a colaborar com a própria destruição porque a alternativa é morrer antes. Há um momento em que as vítimas começam a delatar umas às outras. Esse é o filme. O resto é cenário.
Pasolini foi morto em novembro de 1975, atropelado várias vezes pelo próprio carro numa praia de Ostia, semanas antes da estreia. A investigação nunca foi confiável. É impossível assistir a Salò hoje sem essa sombra: o homem que filmou o poder levando o corpo às últimas consequências teve o próprio corpo destruído antes que pudéssemos vê-lo terminar a frase. O filme ficou como testamento, e um testamento não pede que você goste dele. Pede que você leia.